As Camadas de Silent Hill

Heather: Eu não preciso de outro mundo! Está bem do jeito que está.

Cláudia: Mas você mesma disse: o mundo precisa, primeiro, ser limpo com fogo.

 

Talvez a característica mais marcante nas histórias de Silent Hill seja a imutabilidade da realidade. Ao que parece, a cidade possui a capacidade de se transformar em um mundo atormentador e demoníaco onde seus protagonistas são jogados sem qualquer chance de resistência. Lá todas as perversões tomam forma e são convertidas em ambientes bizarros com paredes de carne, sangue em abundância, ferrugem e artefatos bizarros que deixariam Clive Barker extasiado.

Este “outro mundo” maligno é alternado, durante as histórias, com uma realidade mais sutil, no qual a cidade está completamente coberta por uma névoa fantasmagórica que remete diretamente ao conto “O Nevoeiro”, de Stephen King.

Estas duas realidades alternativas incentivam incontáveis discussões a respeito da verdadeira natureza de Silent Hill. E para complicar mmais, os próprios jogos contribuem para alimentar ainda mais as discussões e teorias hipotéticas ao evitar apresentar uma verdade conclusiva sobre o que é, afinal, a cidade de Silent Hill.

Para organizar esta discussão de forma que possa servir de base para que as crônicas de Role Playing sejam criadas, iremos primeiro analisar estas diversas “realidades” nas quais a cidade pode se transformar e depois (nos próximos posts) as hipóteses e interpretações que estas criam.
 

O “mundo real”

Em algumas histórias Silent Hill será encontrada totalmente (ou parcialmente) habitada. Neste caso, a cidade permanece como um ponto turístico de veraneio. Um lugar quieto e pacífico ou, caso o Narrador deseje, estranho e onírico (como Twin Peaks). A critério do Narrador, este “mundo real” pode ou não apresentar a característica neblina que cobre a cidade – apesar de na maioria das histórias esta neblina esteja associada somente à próxima realidade.
 

O “mundo da névoa”

Assim que entrou em Silent Hill, Harry Mason se deparou com a cidade totalmente abandonada. As rotas de saída da cidade estavam inacreditavelmente barradas por precipícios intermináveis e pilhas e mais pilhas de escombros. Sem contar a espessa neblina que cobria a cidade, omitindo monstros deformados e perigosos dos olhos de Harry.

Tal história se repetiu com praticamente todos os outros “visitantes” de Silent Hill. Em alguns casos o “mergulho” neste universo coberto pela neblina e suas criaturas foi mais gradual, em outros foi súbito, mas encontrar a cidade desta forma acabou se tornando uma constante nas histórias. A discussão resultante disto é se esta não seria, na verdade, a verdadeira realidade da cidade. Seu verdadeiro “mundo real”. Esta pode, sim, ser uma abordagem adotada pelo Narrador, porém indícios apontam para uma outra tese: a de que este mundo sombrio é na verdade uma realidade intermediária, que liga o “mundo real” com outro ainda pior.
 

O “Outro Mundo” (Otherworld)

Subitamente uma estridente sirene soa ao longe – ou simplesmente gritos ensurdecedores –, pode-se sentir um odor acre de sangue, podridão e carne queimada, o chão é substituído por grades e as paredes pulsam e sangram como se partes de uma gigantesca criatura esfolada. Por todos os lados vê-se correntes, ganchos, lâminas e objetos destinados a cortar, ferir e torturar.

Em determinada altura de uma narrativa em Silent Hill, os personagens acabarão adentrando no “Outro Mundo” – uma versão distorcida e aterrorizante da realidade. Este é, definitivamente, um lugar perigoso, onde monstruosidades sádicas espreitam e o próprio mundo tenta ferir os seres vivos. A aparência deste pesadelo pode mudar bastante de história para história, além dos demônios que lá habitam. Mais importante ainda é o fato dos medos e traumas dos personagens tomem forma (sutil ou explícita) para atormentá-los e arrastá-los em direção à insanidade. Permanecer muito tempo neste mundo, ou perambular por ele, é certamente algo fatal.

 

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Comments
2 Responses to “As Camadas de Silent Hill”
  1. Nelson Ferreira disse:

    Esse site foi um verdadeiro achado. O melhor dedicado a Silent Hil que achei até agora. Textos bem escritos.

    Parabéns!

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