O “Mundo da Neblina”

“Eu realmente não sei dizer. Estava cochilando nesta sala de espera e quando acordei… tudo estava assim. Todo mundo parece ter desaparecido… E está nevando lá fora – nesta época do ano! Algo está seriamente errado… Você viu aqueles monstros?! Você já viu aberrações como essas?! Ao menos já ouviu falar sobre coisas assim?! Nós dois sabemos que criaturas como aquelas não existem.”
(Dr. Kaufmann)


Silent Hill é uma cidade, no mínimo, incomum. A neblina densa impede drasticamente a visibilidade; as ruas estão desertas; as casas trancadas e abandonadas, com suas janelas e portas cerradas às pressas. Em determinada história a neve cai fora de época, em outra é fuligem – como se a cidade inteira houvesse sido incendiada. E monstros saem das sombras para estraçalhar viajantes desavisados.

Este é o que chamamos de “mundo da neblina”, uma realidade alternativa que você encontrará ao visitar Silent Hill. Alguns acabarão acreditando se tratar da verdadeira realidade, mas este é um mundo intermediário que separa o mundo real (o nosso mundo) de uma realidade dantesca conhecida como “Outro Mundo”.

Não que o este universo intermediário seja menos perigoso. Porém, ali os desafios tomam formas mais sutis e as vítimas da cidade tornam-se joguetes em uma brincadeira assustadora.
 

Características

O “mundo da névoa” costuma mudar pouco de história para história. Os personagens quase invariavelmente são jogados para esta realidade sem ao menos perceber a ruptura com o mundo real – não antes que seja tarde demais.

A confusão se deve por esta realidade ser uma cópia quase exata do mundo real. Tudo está (aparentemente) nos mesmos lugares. Claro que Narradores ousados podem apresentar mudanças mais dramáticas em sua crônica. Quem sabe os personagens não poderiam ir parar em uma outra época da cidade, aumentando ainda mais o desespero de não saberem como voltarão a suas vidas habituais. Certamente um desafio interessante para narrar.

  • A Neblina ­– Desde Silent Hill 1 que a forte bruma que cobre a cidade ficou famosa. Em se tratando de jogos de interpretação, cabe ao Narrador determinar como ela se comportará. Pode ser uma simples neblina, fuligem negra, neve (com o frio que a segue), fumaça sufocante, ou até mesmo uma bruma fantasmagórica que parece ter vida própria.
  • Solidão – Em uma cidade deserta, onde qualquer passo faz eco, há algo de inquietante. Este abandono pode ser mais que uma simples condição da cidade. É uma ferramenta útil para aumentar o medo dos jogadores, não acostumados às situações extremas que podem vir da total falta de ajuda. Veja o exemplo de Eddie Dombrowski, que ao se ver em uma cidade desprovida de autoridades deixou aflorar seu lado assassino. A melancolia e a solidão de uma cidade abandonada abre diversas possibilidades.
  • Degradação – Silent Hill está em ruínas. Pode até ser uma metáfora para a degradação interna de seus protagonistas, ou para reforçar a ausência de ordem – não importa. A cidade parece ter sido deixada às pressas (ou em meio à algum tipo de ataque), e o desespero pode ter causado acessos de vandalismo. Carros destruídos, lojas saqueadas. Ou, caso o Narrador prefira, a cidade está completamente normal, salvo que seus habitantes desapareceram completamente, deixando chaves de carros no contato, cafés sobre mesas etc.
  • Isolamento – De alguma forma, Silent Hill está isolada. Ou melhor, os protagonistas estão presos ali. Caso procurem os limites da cidade, encontrarão toda sorte de dificuldades. Talvez a neblina seja densa demais, eles inexplicavelmente voltem para o mesmo lugar, ou criaturas devorem aqueles que procuram escapar. Talvez apareçam bloqueios inexplicáveis, como carros empilhados e pontes destruídas, ou mesmo um inexplicável, vertigino e interminável precipício surja onde antes haviam ruas. Da mesma forma, telefones, rádios, televisores… nenhum meio de comunicação funcionará para quebrar o isolamento que a cidade inflige à suas vítimas.
  • Escuridão – As noites no “mundo da névoa” costumam ser indescritivelmente escuras. Talvez nem mesmo as fontes de luz mais poderosas consigam iluminar mais que alguns passos, e o brilho das estrelas simplesmente desaparecem em um negrume total. Torna-se claro de que há algo de muito errado com o mundo.
  • Fatos inexplicáveis – Aqui, parece que o mundo prega peças nas pessoas. Coisas como mensagens particulares em paredes e bilhetes, portas trancadas cujas chaves estão em locais nonsense (dentro de uma lata de refrigerante que está dentro de uma máquina automática, ou dentro de um cão morto servido em uma mesa de banquete, por exemplo) torna-se comuns.

 

 

Significados

Supõe-se que quando a Konami fez o primeiro jogo da franquia Silent Hill, criaram a neblina para, convenientemente contornar a limitação do PlayStation®, que impossibilitava a exibição de um cenário tão vasto. A certa altura do jogo, a neblina era substituída por uma profunda – e igualmente limitadora – escuridão. Estes artifícios se mostraram tão eficientes para aumentar o medo e a tensão dos jogadores que ajudaram a ascender Silent Hill como um dos melhores jogos de horror já produzidos. A neblina, então, tornou-se característica obrigatória em uma história de Silent Hill.

Mas este é um cenário onde tudo costuma ter diversas possibilidades de interpretação. E, desta forma, a neblina de Silent Hill passou a ser vista como uma metáfora para aspectos diversos das histórias. Já foi discutido se faria referência a um incêndio famoso na franquia, se representaria a memória enevoada de determinado protagonista, entre várias outras teorias. Mais importante no entanto é o fato de que o “mundo da névoa” possa deixar de ser apenas uma outra realidade e passar a ser, também, uma analogia para o que quer que o Narrador queira. Pode ser que os jogadores nem mesmo enxerguem tal representação, mas poderão, com suas próprias ideias criar novos e importantes significados que tornarão a narrativa uma experiência tão pessoal quanto é o pesadelo de Silent Hill a seus personagens.
 

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