Crônicas do “Outro Mundo”

“Isso pode soar loucura, mas me ouça, você tem que acreditar em mim. Eu não fiquei louco e não estou brincando. No início achei que estivesse perdendo a cabeça, mas agora sei que não estou. Não sou eu. É toda essa cidade – ela está sendo invadida pelo outro mundo. Por um mundo onde os delírios e pesadelos de alguém vêm à vida. Pouco a pouco a invasão está se espalhando. Tentando engolir tudo na escuridão…”

Medo. Este, claro, é o âmago das histórias de horror. Mas, mais do que isso, estas histórias consistem em mergulhar seus espectadores dos seus mais profundos medos. Seus medos particulares.

No cinema (e na literatura), a forma mais usual de fazer com que isto aconteça é criar um elo simpático entre o espectador/leitor e o(s) protagonista(s). Caso o espectador sinta-se na pele do personagem, metade do trabalho já estará realizado.

Os video games e os RPGs, neste caso, possuem um trunfo em relação ao cinema e os livros. Aqui, os “espectadores” são jogadores, e os protagonistas da história são, de certa forma, os próprios jogadores também. Logo, atingir os medos de tais indivíduos a partir dos perigos pelos quais os protagonistas irão passar torna-se algo muito mais direto (mesmo que não facilite na totalidade o trabalho do Narrador). E ainda, Silent Hill possui mais uma vantagem para a elaboração de histórias de terror. O “Outro Mundo”.
 

Um mundo distorcido

O “Outro Mundo” (Otherworld1) é uma realidade paralela e infernal para onde os personagens da série Silent Hill são arrastados em certo momento da história. Lá eles enfrentam seus medos, sua culpa e confrontarão seus destinos.

Este é o básico, eu sei, mas além desta explicação sintética note que o “Outro Mundo” é também uma síntese dos medos de todas as pessoas. Ele é uma colcha de retalhos feita de mitos e temores fundamentais que assolam a humanidade desde o começo dos tempos. Pense em um inconsciente coletivo alimentado de fobias por alguns milênios e você chegará bem próximo da visão clássica de Inferno. Um local escuro, ocasionalmente claustrofóbico, onde depravações físicas, morais e até mesmo sexuais podem tomar forma de maneira inesperada (e perturbadora). Este é o “Outro Mundo”.

E perturbação é uma palavra adequada para sintetizar esta realidade alternativa. Ao invés de se concentrar nos temores individuais de cada personagem, o Narrador é aconselhado a generalizar os temores de todos eles neste local único. Certamente uma estratégia brutal para evocar o medo em todos. E quais seriam os sentimentos mais genéricos a serem exteriorizados? Talvez a aversão à escuridão, talvez a culpa pelos próprios pecados, medo de questionar a própria moral, a própria sanidade, as próprias crenças, ou o pavor que surge da mutilação, a repulsa por sangue, o medo da solidão, da perda, do abandono. Ou talvez seja o simples e eficiente temor da morte. Tudo isto toma forma (sutil ou não) em Silent Hill. Ou melhor, no Outro Mundo de Silent Hill.
 

 

Medo privado em lugares públicos?

Uma discussão recorrente sobre o “Outro Mundo” é a respeito do quão particular este é para os personagens da história. Seria este um purgatório igual a todos os protagonistas? Ou seria ele completamente diferente?

Ao longo da franquia Silent Hill este “inferno” foi constantemente modificado. Indo de pequenos detalhes a características maiores, estas atualizações abrem margem para duas interpretações. Por um lado poderia ser uma simples forma de manter o interesse dos jogadores, atualizando os jogos. Por outro, pode significar que os protagonista de cada história estaria vislumbrando um “Outro Mundo” particular e diferente dos demais.

Em Silent Hill 2, por exemplo, James Sunderland enxergava o Outro Mundo como um lugar deprimente, opaco e sem vida. Por todos os lugares as paredes estavam revestidas de plástico (remetendo à uma espécie de quarentena), os ambientes desertos e muito, muito sujos (seria uma metáfora para sua própria degeneração moral?). James, por sua vez, encontrou Laura, uma criança que veio à cidade  procurando uma amiga. Laura não via monstro algum em Silent Hill – apesar de também ver a cidade abandonada.

Foi Angela Orosco, no entanto, quem incutiu com maior força a dúvida sobre o “Outro Mundo” ser ou não um fenômeno particular. Isto aconteceu quando, em meio a um incêndio, ela trocou as seguintes palavras com James.

James: Está quente como o inferno aqui.

Angela: Você também percebe isso? Para mim, é sempre assim.

Estaria Angela vendo continuamente, em sua visita ao “Outro Mundo”, chamas por toda parte?

Infelizmente, os títulos que precederam Silent Hill 2 não acrescentaram muito a este debate. Eles procuraram, ao invés disso, uma retomada da estética e dos conceitos do primeiro jogo, ao passo que o modernizaram. Sabe-se, no entanto, que Silent Hill: Downpour provavelmente trará o assunto de volta à berlinda. Nesta história, Murphy Pendleton, um presidiário em fuga, encontra o Outro Mundo um pouco diferente – com a água sendo um elemento recorrente, na forma de chuvas, enxurradas, cachoeiras e outras formas menos naturais. Qual o significado disto? Aguardaremos para ver.
 

 
1 Algumas vezes, o Otherworld (“Outro Mundo”) é chamado de Otherside (“Outro Lado”). Em Silent Hill 1, Alessa Gillespie refere-se a esta realidade como The Darkness (“A Escuridão”), o que forma uma bela analogia já que ela pode estar falando tanto do mundo demoníaco (que é uma manifestação de seu ódio) quanto de sua própria “escuridão” interna – seu lado maligno.

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