A Transição Entre os Mundos [parte 2]

“Todo o meu mundo subitamente se tornou insano.” (Henry Townshend)

Por trás da paisagem bucólica de Silent Hill se esconde um universo demoníaco. Lá, os medos, os desejos e os traumas das pessoas tomam formas e significados aterrorizantes.

Ao longo da série, foram utilizadas diversas formas de colocar os personagens dentro desta outra dimensão. Por vezes eles simplesmente acordam ali, em outras são transportados em meio a sons ensurdecedores e efeitos visuais inacreditáveis. Dando continuidade ao texto anterior, analisaremos algumas destas formas – e os temas que o Narrador pode trabalhar com elas.
 

Mergulhando dentro da própria mente

Não é preciso ser nenhum doutor em psicologia para enxergar a associação clara entre este “mundo infernal” de Silent Hill e o subconsciente de seus personagens. Tal associação ganhou mais força a partir de Silent Hill 2 e nunca mais abandonou a série. Isto porque o “outro mundo” lembra em muitos aspectos um pesadelo (ou alucinação).

Sob este ponto de vista, mergulhar neste universo dantesco pode ser encarado como uma viagem pelos cantos recônditos da própria psiquê (ou pior, da psiguê de outra pessoa). Foi o que aconteceu com JamesAngelaEddieAlexMurphy e tantos outros que visitaram Silent Hill. Eles encontraram, dentro do “outro mundo”, aspectos nada agradáveis de si mesmos e de suas histórias pessoais. Esta viagem freudiana nem sempre aparece de forma tão explícita. Para Heather e Travis, Silent Hill serviu mais como uma forma de entender o próprio passado do que a própria mente.

Outro aspecto interessante desta forma de ver o “outro mundo” como uma viagem para dentro de si mesmo é a presença da espiral descendente. Ela é uma representação psicológica que colocada no cenário de diversas formas visuais, como um simples declive, um túnel escuro, buracos úmidos e sujos, escadas em espiral, entre outros.

Claro, estamos falando puramente de aspectos visuais, mas nada impede que a própria história aponte para esta metáfora. Silent Hill 2, por exemplo, apresenta muito deste conceito. Em sua história o protagonista não apenas descobre gradualmente verdades psicológicas sobre si mesmo como também entra literalmente por buracos que o levavam a estas revelações. Ali eles simbolizavam “o abismo que se abriu em seu coração”, como diz no livro Lost Memories. Caindo por estes abismos, ou buracos, James estaria mergulhando em seu subconsciente, para finalmente aceitar o crime que cometeu. O Lost Memories afirma, inclusive, que os indivíduos com “a escuridão em seus corações” seriam atraídos por estes buracos.

O que nos leva a Silent Hill 4: The Room, onde seu protagonista, Henry, não apenas entrava por incontáveis buracos dimensionais, como também era o único a enxerga-los (Eileen Gaivin, que o acompanha em parte da história, fica presa no “outro mundo” por não conseguir vê-los).

O que me lembra que James, em certo momento, encontra uma inscrição na parede de um bar que diz: “existia um buraco aqui, mas ele se foi”. Se pensarmos que a visão dos “abismos” seja algo pessoal, então a pessoa que escreveu a mensagem pode ter superado seus pecados e o “abismo”, para ela, deixou de existir/aparecer.

Pensar na existência das entradas para o “outro mundo” desta forma, como sendo puramente pessoais, cria toda uma nova problemática. Se os personagens não compartilharem a entrada para o “outro mundo”, então cada um irá cair em uma região diferente da dimensão infernal? Ou seria certo sugerir que cada um cairia em uma versão diferente do “outro mundo”? Neste caso, as possibilidades por trás de Silent Hill seriam infinitas.


 

Novos significados para os “abismos”

Apesar do mergulho no “outro mundo” ser normalmente assimilado com uma viagem dentro da própria mente (ou alma), este não precisa ser o único tema tratado. Os protagonistas bem que poderiam estar entrando nos labirintos da insanidade enquanto acreditam estar procurando o autodescobrimento. Ou o tema tratado poderia ser auto-redenção, renascimento, superação, fuga, entre diversos outros.

Em Silent Hill 3, por exemplo, os abismos encontrados na história não eram descidos, e sim ascendidos por Heather, a protagonista. O significado, neste caso, era o lento e doloroso nascimento de uma entidade maligna (o deus obscuro cultuado em Silent Hill).

Quais serão os significados dados à jornada dentro do “outro mundo” e o que os “abismos” encontrados nele irão simbolizar, cabe naturalmente ao Narrador decidir. Assim como a interação dos personagens com estes abismos. Eles irão simplesmente cair ou lhes será dada a escolha de encarar a escuridão (e seus pecados)? Esta escolha será real ou eles serão coagidos de alguma forma?

Sistemas: Falando sobre regras, parece improvável que o Narrador queira lances de dados para checar atos simples como descer, subir ou se arrastar por túneis. Porém, em momentos mais extremos, quando os personagens precisam destemidamente mergulhar dentro de abismos escuros e intermináveis, o gasto de um ponto de Força de Vontade (ou somente um teste de Perseverança + Autocontrole) pode ser aceitável. Caso o Narrador ainda queira seguir em frente com a ideia de que os personagens são atraídos para os abismos, então a primeira coisa a se fazer é determinar de onde vem esta força invisível. A partir da resposta pode-se determinar qual teste será necessário, em quais situações, e contra o que ele será feito (um teste simples, uma disputa contra uma entidade maligna, etc.).
 

O Chamado da Sirene

Uma sirene toca ao longe. Acompanhada de um ruído estrondoso, ela pressagia que o mundo irá se transformar em algo horrendo. O som das notórias sirenes de Silent Hill já se tornou uma das marcas registradas da série. Pode até ser que ela não passe de um recurso sonoro para amedrontar ainda mais aos jogadores, mas é inquestionável que cria boas discussões sobre seu significado.

Gosto de pensar que a sirene não existe realmente, que é uma ilusão causada ou pelos protagonistas ou pela cidade amaldiçoada, mas isto, claro, é uma opinião pessoal. De fato, a resposta sobre a fonte do som nunca ficou clara. O que sabemos é que a sirene acompanha a transição para o “outro mundo”, tornando-se parte integrante do pesadelo dos personagens.

Curioso como mesmo sendo tão memorável, nos próprios jogos a sirene não foi muito utilizada (três ou quatro vezes em cada um). Isto nos lembra que nenhum recurso amedrontador mantêm sua vitalidade se utilizado em demasia. Assim como as viagens para o Inferno, a sirene deve ser usada de forma pontuada, para surtir melhor seu efeito amedrontador.

Na procura por um simbolismo para esta sirene, podemos traçar algumas possibilidades (ou sugestões):

  • O trauma: No primeiro jogo da série, os aspectos do “outro mundo” eram determinados pelos traumas sofridos por uma importante personagem. Dentro de sua mente, os eventos que ela sofreu no passado eram distorcidos e se transformavam em um pesadelo real. A sirene, então, representava o som da ambulância que lhe acolheu.
  • O aviso: No filme “Terror em Silent Hill”, a sirene era um objeto real, colocado sobre a igreja da cidade, e utilizada para avisar a todos que a transição entre os mundos estava se aproximando. (Note, no entanto, que o universo do filme é sensivelmente diferente do encontrado nos jogos, necessitando de algumas adaptações para que os fatos discutidos aqui possam ser utilizados).
  • A guerra iminente: O som da sirene de Silent Hill é semelhante ao que utilizavam na Segunda Guerra Mundial, como alerta de um iminente ataque nuclear. É possível traçar uma ligação entre ambas?
  • O chamado da sereia: Keiichiro Toyama foi diretor do primeiro Silent Hill. Junto com outros membros da equipe de produção (o Team Silent) ele criou um outro título de horror, Siren, que possui muitas semelhanças com Silent Hill. Uma região isolada, personagens com um passado obscuro, transições que fazem a cidade virar um pesadelo povoado por monstros, além do indefectível som de uma sirene antes que isso aconteça. Em Siren, no entanto, a sirene simboliza algo que em Silent Hill é apenas uma hipótese. A sirene é como o canto de uma sereia, que chama não só os personagens para o pesadelo, mas também os monstros que irão caçá-los. Aliás, a palavra “siren”, em inglês, significa tanto “sirene” quanto “sereia”.
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Comments
One Response to “A Transição Entre os Mundos [parte 2]”
  1. Emmannuel Alexandre disse:

    Magnificos seus textos

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