Simbolismos [parte 1]

“Você invadiu o espaço de outras pessoas e agora nós estamos invadindo o seu, e já que eu sou uma versão de sua fantasia desarranjada da Cheryl real, posso dizer isso e sair numa boa.” (Cheryl, Paint It Black)

 

As grandes histórias nunca são apenas sobre heróis enfrentando obstáculos. Elas são sobre nós. Nossos conflitos internos, nossos sonhos e nossos medos. Muito antes do ancestral Mahabharata, muito antes dos mitos gregos e da era de Hollywood, os melhores narradores já sabiam que o que prende o espectador à história é o diálogo interno que esta trava com ele.

E isto pode aparecer de incontáveis formas. Monstros representando nosso egoísmo, ou vilania, deuses e super-heróis que exaltam nossos ideais de virtude, desafios que são metáforas dos obstáculos da vida cotidiana, etc. No cinema, na literatura, nos videogames, nas histórias em quadrinhos ou em um pequeno conto dito à beira da fogueira, as histórias conversam com nosso “eu” mais íntimo, e desta forma se tornam grandes histórias.

Nos jogos de narrativa (RPGs) isto também pode acontecer. Narradores e jogadores sempre podem procurar dar um significado maior às suas interpretações. Não precisam almejar um Hamlet, mas podem criar narrativas memoráveis, dentro da simplicidade de um jogo.

 

Um carnaval de metáforas

Silent Hill, você bem sabe, é uma cidade bastante atípica. Ali as pessoas irão encontrar coisas profundamente perturbadoras. E digo profundamente porque serão fatos que estavam escondidas dentro de sua psique. O aprendiz de sociopata que pode encontrar a possibilidade de fazer vítimas, para depois descobrir que eram fruto de sua imaginação corrompida; a garota violentada pode ver a oportunidade de conseguir vingança; o homem reprimido pela mãe pode vislumbrar seu rosto em todos os monstros que encontrar. É por isso que Silent Hill é um carnaval de metáforas.

Não que tudo seja sempre tão óbvio. O poder nefasto da cidade também é dotado de sutilezas. Se um indivíduo sofre traumas por ter sofrido bullying quando criança, os monstros de Silent Hill podem tanto aparecer como versões distorcidas de seus antigos agressores como murmurar com voz infantil, fazendo uma referencia quase imperceptível ao trauma. O Narrador, neste caso, terá um extenso e criativo trabalho atribuindo significados ocultos, ou nem tão ocultos, aos elementos de sua crônica.

O mais interessante é que isto não precisa se limitar às histórias em Silent Hill. Afinal, um oponente não precisa ser apenas um mero obstáculo. Ele pode ser uma representação do mal e da corrupção que os próprios protagonistas causaram no passado, uma lembrança de seus atos cruéis, uma demonstração do quão baixo eles podem chegar se deixarem-se levar por seus pecados, além de diversos outros significados.

De fato, colocar antagonistas como representações simbólicas não é tão difícil. Basta colocar-lhes dois ou três indícios e já basta. A complexidade começa quando decidimos transformar tudo dentro da história como uma metáfora – e ai reside a arte verdadeira. A maçã da Branca de Neve simbolizava o pecado (que apesar de belo e suculento trás a morte interior)? A ênfase da palavra “grande” em Chapeuzinho Vermelho sugere uma conotação sexual? A Matrix representa a prisão mental dos indivíduos que não abraçam o pensamento filosófico-crítico? David Lynch realmente coloca centenas de significados ocultos em seus filmes ou nós imaginamos a maioria?

Poderíamos continuar interminavelmente nesta discussão, pois as simbologias estão em bilhões e bilhões de histórias. Por isto que estas histórias são tão importantes, elas nos fazem enxergar além da superfície. Desde a floresta fálica que simboliza a passagem sexual em O Senhor dos Anéis até Heather demonstrando que na sociedade moderna as mulheres são empurradas para um papel de mães, mesmo contra a própria vontade, ou então permanecem como guerreiras masculinizadas (o mesmo discurso de Alien, O Oitavo Passageiro, diga-se de passagem).

Para complementar a discussão, vamos a alguns exemplos:

  • O padre se vê em um momento de enorme descrença religiosa. Sua fé está abalada. Para, Silent Hill alterna entre um purgatório tipicamente cristão e o Paraíso. As monstruosidades profanas que ele encontra lembram pessoas penitentes, arrastando-se ajoelhadas e murmurando orações incongruentes. Para completar, um sacerdote satânico e enlouquecido persegue o protagonista tentando lhe aplicar uma severa penitência.
  • Enquanto fugia da polícia, o personagem – um notório delinquente – atropelou uma garota inocente. Na pressa, não lhe prestou socorro. Agora, em Silent Hill, ele não apenas é constantemente atacado por carros, que surgem silenciosamente em meio à neblina, como enxerga o vulto de uma garota vigiando-o. Algumas vezes ele a escuta chorando copiosamente, mas o que ela deseja permanece uma incógnita.

Está então proposto o desafio. Procure imprimir em suas histórias camadas de significados. A metáfora é um tempero que torna os acontecimentos narrados ainda mais saborosos. Uma floresta escura que representa uma luta interna aqui, uma ilha que simboliza o isolamento do protagonista ali… Ou a prisão cheia de grades, o barco atravessando o rio, o mar congelado, o pântano fétido, a igreja isolada, o porão escuro…

As Personificações

Certa vez, em um livro espírita, li a definição de que no mundo espiritual nós encontramos os monstros particulares que alimentamos durante nossa “passagem pela carne”. Sempre me lembro disto ao analisar Silent Hill. Esteja a cidade localizada no mundo dos mortos ou não, o interessante de Silent Hill é justamente esta característica: a possibilidade de colocar na história elementos da mente e do passado dos personagens, materializados.

Em Origins, por exemplo, Travis enfrenta um demônio que é fruto das memórias dolorosas e confusas que possui sobre a própria mãe, que tentou mata-lo quando era bebê. Uma situação que por si só já possui uma carga psicológica avassaladora. Infelizmente para Travis, em Silent Hill este trauma é exteriorizado. Assim como os monstruosos soldados que tentam assassinar Jason em Among the Damned, e que representavam os amigos que ele não pôde salvar. Ou mesmo Aaaron, ex-parceiro de Jason, que mesmo monstruoso aparece para resgatá-lo. Em todos estes casos, o conflito interno já existia. Silent Hill apenas os expos.

Culpa, medo, doença, dor, luxúria, violência, perda, pai, mãe, anjo, guardião, carrasco… Muitos e muitos conceitos podem ser personificados em Silent Hill. O excelente livro GURPS Horror, por exemplo, categoriza os “monstros clássicos” das histórias de horror em relação aos medos mais comuns em nós, humanos. Assim, cada monstro se torna não apenas um antagonista com intenção de se opor aos personagens; ele é também uma representação de algum medo profundo e específico que todos nós compartilhamos em algum grau.

 

Medo de Doença e Contaminação

Representado por monstros com a capacidade de passar um mal adiante, de forma contagiosa. Eles podem ser simplesmente venenosos, ou mesmo fazer com que os personagens sofram algum tipo de metamorfose bizarra ao serem contaminados (pense no clássico “A Mosca”). Uma mudança que pode ser física, emocional, ou os dois; e a promessa de uma morte lenta e agonizante sempre próxima.

Uma outra abordagem é fazer com que eles lutem contra uma epidemia, e precisem lutar para conter um mal que é tão efêmero quanto mortal. Stephen King, com seu “A Dança da Morte” criou uma boa referencia para este terror.

 

 

Medo da Natureza

Existe uma besta que habita dentro de cada ser humano. Ela é um reflexo de nosso passado animal, e nós a tememos por sua imprevisibilidade. Junte a isso às memórias genéticas da época em que éramos presas fáceis de predadores e você encontrará um campo vasto para explorar o medo de ser caçado, de voltar a ser alimento indefeso em uma floresta escura.

Silent Hill possui uma grande quantidade de oponentes bestiais – cuja ferocidade nos lembra o quão imparcial e implacável a natureza pode ser. Além disto, eles demonstram que a civilidade, no fim, não assegura sobrevivência alguma para as pessoas. (Como curiosidade, veja a junção esquisita de dinossauros e survivor horror em Dino Crisis, ou o terror palpável e extremamente realista do filme “Armadilha do Destino”).

 

Medo da Loucura

Todo o cenário de Silent Hill é construído sobre o medo inerente da loucura, do irreal, do inexplicável. Um mundo louco é aquele que funciona fora do que conhecemos como possível. Um mundo habitado por monstros demoníacos, onde sonhos e pesadelos tomam formas bizarras e seus pecados aparecem para lhe cobrar um preço mortal, certamente é uma loucura. Isto pode ser explorado no próprio “outro mundo”, mas também na presença de manicómios, nos antagonistas insanos e nas religiões obscuras feitas claramente por uma noção completamente contraditória da realidade. Sugestão de filme: “Camisa-de-Força”.

 

Medo de Mutilação

O medo de ser mutilado ou sofrer danos grotescos pode levar as pessoas ao mais completo desespero. E não é preciso enfrentar Jack, o Estripador ou um alienígena devorador de cérebros para ficar apavorado com esta perspectiva. Oponentes que podem dilacerar um personagem já é o suficiente para criar desde a simples repulsa até um intenso trauma. E encontramos criaturas assim por toda a franquia.

Mas Silent Hill leva isto a um outro patamar ao apresentar todo um mundo (o “outro mundo”) que pode causar graves lesões físicas com suas hélices, criaturas e maquinários bizarras. Como referência, qualquer filme da série Hellraiser é suficientemente apavorante neste quesito.

 

Medo do Sobrenatural

Clássica fobia utilizada em histórias de horror, o sobrenatural está representado na forma de espíritos vingativos e toda a sorte de seres que atravessam as fronteiras entre os mundos para atormentar os vivos. Criaturas amedrontadoras pela sua simples natureza, e que podem se tornar ainda mais amedrontadoras caso seus objetivos sejam vis. Silent Hill potencializa ainda mais este medo ao mostrar não somente criaturas sobrenaturais que querem ferir os personagens, mas toda uma cidade que o quer. Para inspirar, leia os contos de Edgar Allan Poe.
 

 

Medo da Morte

Todos os medos e todos os sonhos levam à Morte. E ela é tão justa quanto implacável – absolutamente ninguém lhe escapa. Por isso mesmo, o medo da morte é primordial e o carregamos de forma irremediável.

O mais comum, nas histórias de terror atuais, é este temor aparecer na forma de mortos-vivos (zumbis, múmias, vampiros, fantasmas etc.). Em Silent Hill raramente é desta forma. Aqui os desmortos são substituídos por monstros provenientes da psique dos protagonistas – não das covas. Isto torna comum que pessoas que deveriam estar mortas apareçam, mas não precisam necessariamente serem fantasmas. Outro uso comum desta fobia é a presença de locais que façam referencia à morte, como cemitérios, necrotérios e hospitais.

 

Medo do Universo (Desconhecido)

Incrivelmente vasto e inexplorado, o universo desperta medo justamente por não sabermos os perigos que ele contém. E se antigamente este temor era apresentado na imagem de seres vindos de planetas vizinhos, desde H. P. Lovecraft e seus horrores cósmicos, o terror se tornou bem maior. Hoje, com a física quântica e a certeza de que o universo é absurdamente maior do que podemos quantificar, os “alienígenas” podem abranger desde criaturas provenientes de outros planetas a seres extradimensionais, que eventualmente encontram ou produzem rupturas na realidade para aterrorizar, manipula, seduzir ou simplesmente destruir o mundo. São as “coisas-que-não-deveriam-existir”, são os “erros da realidade”, ou “Outros Deuses”, são os antagonistas principais de uma história de Silent Hill.

Como referências obrigatórias, assista “À Beira da Loucura” (um pastiche de Lovecraft, por John Carpenter) e “O Nevoeiro” (livro ou filme).

 

Medo dos Outros

As pessoas temem umas às outras; não é nenhum segredo. Quanto mais conhecemos a humanidade e sua capacidade para as mais depravadas atrocidades, mais este medo cresce. De fato existem pessoas que se afundam no isolamento devido a um completo pavor de se relacionar com estranhos. Algo visto como uma patologia grave nesta nossa sociedade fundamentada em inter-relações.

Por isso o isolamento é algo tão usual em histórias de terror. Ao mesmo tempo que ele cria uma certeza de não haver escapatória, também obriga os protagonistas a interagir com estranhos nos quais não confiam, mas que interagir para sobreviver. O cineasta dinamarquês Lars von Trier, por exemplo, usou a ideia da vila isolada onde as pessoas pouco a pouco se mostram perversas e colocou mais medo em “Dogville”, um drama, do que encontramos em muitos filmes de terror. “O Enigma de Outro Mundo”, de 1982 (John Carpenter imitando Lovecraft mais uma vez), é outro exemplo bastante lembrado sobre este tema, mas para uma experiência realmente amedrontadora, aconselho o clássico “O Homem de Palha”, de 1973.
 

Continua em:
“Refletindo seus medos” [parte 2]
“Arquétipos” [parte 3]

 
* Ilustrações de Samuel Araya (Paintagram).

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Comments
One Response to “Simbolismos [parte 1]”
  1. Emmannuel Alexandre disse:

    Meu, seu blog é muito bom! Na moral!

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